CAPÍTULO X

Como sempre, quando você tem uma turnê agitada, não há lugar como a sua casa. Eu geralmente me sinto física e mentalmente doente quando volto das turnês, e tenho problemas em dormir. Ás vezes eu desejo que tivesse um rádio na cabeceira da cama, com sons de ônibus, e que a cama tremesse um pouco. Tenho uma relação de amor e ódio com as poltronas das linhas noturnas, mas as camas... bem, eu amo dormir em um ônibus em movimento! No entanto, depois das turnês que fizemos com Deliverance/Damnation/Lamentations, eu estava empolgado para passar um tempo em casa com minha esposa, e minha filha recém-nascida. Pela primeira vez em... anos, eu acho, me senti genuinamente bem. Escrever para o novo álbum foi um prazer também. Não tive nenhuma preocupação sobre qualquer coisa, eu sabia que queria escrever algumas músicas que fossem além do comum, mas realmente, me senti à vontade com a obrigação. Gravei as minhas demos da mesma forma que havia gravado o material demo do “DD”, mas pela primeira vez em seis anos, eu havia terminado a tempo. Desde o “Sill Life” que eu não terminava às músicas antes das gravações, não havíamos ensaiado nada nos últimos 5 discos, o que é bem insano. Na verdade tivemos 0 ensaios para o “Still Life”, 2 para o “Blackwater Park” e 1 para “Deliverance/Damnation”. E isso chegou a um ponto onde aquele sentimento espontâneo que pode produzir maravilhas, quase se perdeu. Nós conversamos um pouco a respeito, e para “Ghost Reveries” nós tínhamos que ensaiar. Eu fui fiz questão que os outros conhecessem bem as músicas, com antecedência, para que pudessem trabalhar melhor as suas partes e... bem, fazer parte do processo criativo. Então, acabamos ensaiando por quase 3 semanas. Terminei todas as músicas com exceção de uma, antes de entrarmos em estúdio. Ótimo!

Eu tinha andado brincando com um teclado Korg Triton que compramos para o Per na turnê do “Damnation”, e tive sérias idéias de trazer mais teclas no material pesado. Per Wilberg havia finalmente concordado em juntar-se integralmente ao Opeth, e eu estava muito empolgado em escrever músicas para o recém quinteto. Eu não sei tocar teclado, nem se a minha vida depender disso, mas consegui fazer uns acordes, e eu tenho ritmo em mim (sem falsa modéstia), então acabei fazendo algumas coisas legais. Chamei o Per para gravar algumas coisas decentes nas minhas demos. Durante os ensaios, tudo ganhou ótimas formas. As músicas soam novas. Mais uma vez, estamos explorando novos territories. Eu cheguei a sentir aquela “mágica” durante as primeiras sessões de ensaio. Nós estávamos procurando um estúdio aonde pudéssemos gravar, e acabamos com uma escolha entre dois lugares: o Fascination street em Örebro/Suécia e o Sonic Ranch em El Paso/Texas. Como nós precisávamos poder voltar para casa, optamos por gravar na Suécia. Achamos que por estarmos tão bem-ensaiados, não precisaríamos de 2-3 meses em um estúdio para gravar. Assim, cheio de confiança, agendei o Fascination Street studios de 18 de março a 15 de abril. Terminamos as gravações em 1º de junho.

A Music for nations fechou oficialmente suas portas para sempre no ano passado, então o Opeth esteve por um curto período, diretamente sob contrato com a BMG, mas obviamente, fomos excluídos, uma vez que, bem... somos metal! Levou algumas horas até que a primeira nova oferta aparecesse...
Eu, Peter e o nosso empresário Andy Farrow viajamos pelo mundo, para encontrar o selo mais interessante, das 31 ofertas que recebemos. Tivemos reuniões com a Century Media, SPV, Inside Out e Roadrunner. A reunião com a SPV foi um tanto surreal, pois o chefe Manfred e sua comitiva basicamente tomavam chá e brandy enquanto gritavam uns com os outros em alemão, antes de dizer “Está bem”, para as nossas sugestões de coisas que podiam fazer por nós. Adorei aqueles caras. Manfred é um cara que está no negócio há muito tempo, e a primeira coisa que ele me disse foi “Se você assinar com a SPV, eu te dou o disco da Dull knife” (que é uma banda super obscura de krautrock, do início dos anos 70) “...obrigado, mas eu já tenho! “Eu arranjei o primeiríssimo show da Eloy!!! (Outra banda alemã semi-obscura)...impressionante! Para ser honesto, coisas assim fizeram meu coração bater acelerado, pois eu podia imaginas quantos grandes Lp’s aquele cara tinha em sua coleção. Eu assinaria a porra do contrato com eles só pra ter a coleção dele, eu admito! Quando saímos do escritório, comprei todo o catálogo relançado de uma das minhas bandas alemãs favoritas, Popol vuh.

Se você está lendo isso, Manfred, “Obrigado!!” Manfred também me disse que pela primeira vez na história a SPV e sua subsidiária Inside Out estavam “dando lances” pela mesma banda.
Todas as reuniões foram muito interessantes, eu gostei especialmente do Thomas, da Inside Out, que me pareceu ser o único dono de selo super-honesto no meio musical, no mundo inteiro. Fiquei bem impressionado com ele, pra ser honesto. Century Media foi como encontrar com velhos amigos, pois eu tenho contato com eles desde que gravamos o nosso primeiro álbum. Robert Kampf é um dos caras mais legais no meio, e seus parceiros, Ula e Leif, considero amigos. No entanto, a Roadrunner foi quem nos impressionou mais com sua estrutura e a “conversa de vendas” deles realmente ganhou a minha atenção... King Diamond, Mercyful fate, Slayer, Obtuary, Deicide, Pestilence, além de todos aqueles discos de guitarra dos anos 80. Sou o primeiro a admitir que o seu plantel atual não me interessa muito, mas o seu histórico é realmente impressionante! Digo, “Maximum security” do Tony McAlpine sozinho é razão suficiente pra mim, ou talvez não?? Nos reunimos com os escritórios do Reino Unido e Americano, que é na verdade o selo com quem assinamos. Me disseram que esta é a primeira vez que a Roadrunner assina um contrato direto com o selo norte-americano.

15 anos em nossa carreira, estivemos procurando por um selo que pudesse lançar nossos discos em qualquer lugar. Ainda hoje, ouço pessoas me dizendo que não conseguem encontrar nossos discos... Eu já tive o bastante disso! Com a Roadrunner, estamos bastante confiantes que o disco estará disponível em qualquer lugar. Obviamente, assinar com a Roadrunner trouxe um novo “problema” para nós. De repente, fomos acusados por alguns “fãs” de termos nos vendido. Honestamente, isso é um insulto, depois de 15 ano e 8 discos. Não consigo acreditar que não tenhamos merecido a credibilidade de todo e qualqer fã do Opeth, depois de todos esses anos. Eu quero dizer, nossas músicas têm 10 minutos de duração, puta que o pariu! Eu já disse antes, mas vou dizer novamente, nós jamais deixaríamos qualquer pessoa interferir na música do Opeth. Ela ainda é, e isso inclui o cd novo, pura como a maldita neve virgem! Se você não gosta das nossas coisas, isso é gosto/problema seu, só não venha nos insultar com algum maldito comentário de vendidos! Pra mim é bastante óbvio que fãs mais jovens tenham uma visão diferente da Roadrunner, do que nós, nascidos nos anos 70, crescidos com a Roadrunner e o metal em geral. O que me incomoda é que nós, a porcaria do Opeth tenha se tornado alvo de maus comentários de tal ordem. Eu já fui chamado de tudo, insultado de indizíveis forma, mas eu devo dizer, essa é a que me deixa mais enfurecido. Então vocês nos chamam de vendidos?? VÃO SE FODER!!!

Assim que decidimos com qual selo assinaríamos, começaram as negociações, e obviamente, nós da banda somos meros vagabundos, e não sabemos nada sobre contratos. Basicamente, nós cinco assinamos o contrato sem sequer olhar as páginas. Podia ter sido um contrato para um filme pornô gay entre os membros da banda. Tudo que posso dizer é que não comecei a tocar para ter que ler páginas entediantes (e como!!) de contratos.

Quando terminamos as gravações em Örebro, não houve qualquer descanso. Eu voltei pra casa e passei algum tempo com minha esposa e filha. E eu digo, cuidar de uma criança não é tarefa fácil, especialmente se você gosta de dormir até tarde como eu, bem, eu gostava. Agora eu acordo às 7:00, pelo menos. Adeus, madrugadasde PS2!! Eu também já não vou aos pubs com tanta freqüência... mas sabe, eu não queria estar em nenhum outro lugar que não em casa. Os outros caras ambém tiraram alguns dias de folga, mas eu comecei a trabalhar instantaneamente com a arte do álbum, e com essas coisas que precisam ser feitas.

Eu estava procurando por alguma daquelas xilogravuras de aparência medieval. Eu e Peter fomos até a biblioteca real em Estocolmo, procurar por uma imagem do mal (sim!), mas é como procurar uma agulha num palheiro, e não encontramos nada. Enquanto isso, eu havia recebido algumas imagens do Travis Smith. E como sempre, com o Sr. Smith, ele é um gênio... a imagem das velas me desconcertou... é a porra da capa, fodam-se as xilogravuras!! Eu adorei! É provavelmente a capa mais gótica que já tivemos, certo?

O título para o disco é um daquele que aparecem do nada, na verdade foi o primeiro em que pensei… seria “Ghost reveries” ou “Ghost letters”, e reveries soava mais legal. Eu já vinha querendo fazer um disco com letras e um conceito do oculto, e já havia tido um grande começo, criando letras extremamente más, como “The baying of the hounds” e “Ghost of perdition”, e então fiz “Isolaion Years”, que não tinha nada a ver com o conceito pretendido, mas eu acabei gostando tanto, que decidi amenizar o conceito em favor desta letra em particular. Por quê eu decidi pelo tema do oculto? Bem, eu sempre fui intrigado por ele, especialmente o satanismo e coisas do tipo. Eu estudei alguns livros que minha esposa coincidentemente possui em sua coleção, como “Servos de Satã” ou “Bruxaria e Magia” além de alguns outros.

Pensei que seria interessante ver o quê uma mente madura de 31 anos faria com o assunto, ao invés do adolescente de 16 anos que posava em frente ao pôster do Bathory. Estou bastente feliz com elas, pra ser honesto, e elas são... más!

Chegaram a nos oferecer para tocar no Ozzfest, nos Estados Unidos, mas não há nenhuma sombra de possibilidade que iremos pagar para tocar... não, Sharon, nós cobramos para tocar. Esse ano (2005) também haviam diversas bandas suecas na lista, além do fato de que como ainda não havíamos assinado com um novo selo, os caras por trás do Ozzfest nos tiraram da lista. Apesar de levemente desapontado, eu fiquei na verdade bastante aliviado. Ainda sim, 3 dias depois, nos ofereceram a chance de tocar na primeira turnê “Sound of the underground”, organizado pelo nosso agente americano, Tim Borror.
A lista de bandas, para mim, era uma grande incógnita. Eu não conhecia muitas delas. Éramos a única banda da europa, e a maioria das outras eram, eu acho, de Metalcore ou seja lá como isso se chama. Relutantemente, aceitamos o convite, já que era uma turnê Pré-lançamento, e achamos que seria legal criar uma certa expectativa acerca do álbum, antes do seu lançamento, além de tocar para potenciais novos fãs. E acabou sendo um enorme sucesso!!

Fiz tantos novos grandes amigos naquela turnê, inacreditável. Eu e o Matt da High on fire parecíamos irmãos. Os caras da Clutch foram praticamente as pessoas mais legais que conheci, e nós até tivemos uma looooonga madrugada de jams bêbadas com eles.

Eles prepararam os seus equipamentos no estacionamento de Corpus Christi/TX, e todas aquelas constelações, tocando feito diabos, bêbados sem qualquer noção! Strapping Young lad é obviamente considerada uma das minhas melhores amizades musicais. Eu tenho uma ligação estranha com Devin Townsend, ele é uma pessoa fantástica! Gene Hoglan é, obviamente... Gene... o papai mais legal do planeta. Will, o tecladista deles mostrou ser um maluco aficionado por Volvos, e passou o tempo todo falando sobre Volvos. Eu mencionei que tinha um e seus olhos fizeram algo como “bingo”!! Então ele me bombardeou com perguntas... Então eu disse... “bom… eu comprei pneus de inverno pra ele”… eu não sei nada sobre carros.

Os caras da Gwar eram tão engraçados... grandes, grandes caras. Foi bom encontrar a Devildriver de novo e o Dez me deu tantas garrafas de vinho. Eu espero retribuir o favor um dia. DD é uma das nossas melhores companhias de turnê, pra ser honesto, nos divertimos muito com eles, e eu espero poder sair em turnê com eles de novo.

Voltar pra casa não significou descansar, outra vez… eu tinha um show, O SHOW, marcado com a Bloodbath em 3 dias, então basicamente disse oi para a minha família e já saí correndo para Linköping, para ensaiar. Tudo pareceu ótimo, os outros caras haviam ensaiado bastante sem mim, então só tive que entrar e a mágica aconteceu!!
O show foi incrível, muita gente em Wacken, tocamos 10 ou 11 músicas e o público foi insano o tempo todo. Eu estava coberto de sangue falso, e todos nós da banda tivemos as camisas rasgadas e manchadas com sangue e barro, ficou ótimo!
Escrevo de casa, onde estou há uns dois dias. Passamos uma semana em nove vôos para diferentes partes da Europa, fazendo alguns festivais e imprensa. Parece que esse álbum vai nos trazer montes de coisas boas. É o destino dele, ele é demais! * * *


Traduzida por Orchid - exclusivo Opeth Brasil.