CAPÍTULO IX

2004 começou com um programaço, bem na nossa casa. Nós tivemos uma festa de ano novo com muitos dos nossos amigos. Havia um monte de gente (celebridades do metal?) aqui, e eu acho que todos se divertiram um bocado. Eu “trabalhei” como bartender, fazendo os drinks (sim, bebida de graça... malditos freeloaders! - gente que aparece só pra comer/beber de graça) para os convidados, preparando a comida e cuidando do conforto deles. Eu basicamente não tive tempo de ficar tão bêbado quanto gostaria. Minha esposa não bebeu nada. Ela havia feito um teste de gravidez apenas um dia antes, e havia dado positivo. Ainda sim, ela andou a noite toda com um cálice de vinho sem álcool, só para não ter que dar qualquer explicação “difícil”.

Per Wiberg apareceu, mas o resto da banda tinha outras festas, em outros lugares.
Ainda sim, foi uma ótima noite! Imagine se eu já não os vejo o bastante!
Esta havia sido a nossa maior pausa, desde a última turnê. Jordânia foi cancelada duas vezes, e a turnê sul-americana azedou, depois que alguns promotores amadores literalmente foderam com tudo. (Esperem aí, Chile. Mal podemos esperar para ir aí... Brasil, Argentina, Uruguai?)

Eu estava bastante ansioso para sair em turnê de novo, apesar da volta para casa ser sempre bem-vinda. Tínhamos uma loooooonga turnê agendada nos EUA (nossa quarta, promovendo os dois últimos álbuns). Esta seria, oficialmente, para promover o nosso DVD, Lamentations – Live at Shepard’s bush empire”, mas era na verdade uma mistura de todos os álbuns, e não o set do DVD. Tivemos o suporte dos veteranos portugueses (desculpe Fernie, mas estamos chegando lá) Moonspell, e dos novatos Devil Driver, da qual eu sei muito pouco, tirando o fato de que o líder é o ex-vocalista do Coal Chamber Dez. De qualquer forma, a turnê começou no final de janeiro, e nos sentimos como uma máquina bem lubrificada. No entanto, Martin Lopez havia tido uns problemas recentes. Os mesmos problemas que nos fizeram cancelar a Jordânia na primeira vez (na segunda vez, o promotor cancelou!). Ele estava sofrendo ataques de ansiedade, e não se sentia nada bem. Mas tudo começou muito bem, com a banda toda encontrando-se no aeroporto de Arlanda. Todos os cinco, agora com Per como membro/membro de palco (seja lá como vai ser), incluído na banda.

Nós tinhamos um vôo marcado para Frankfurt, mas por causa da neve, o vôo teve que ser relocado para Stuttgart (Por quê??? Não é a primeira vez que é inverno!), devido ao gelo que se acumulava na pista. Acabamos perdendo nosso vôo de conexão com o Canadá, por causa do atraso do ônibus que nos levaria de volta a Frankfurt. Problemas iminentes! Lá, no aeroporto estava um tremendo caos, com alguns vôos cancelados, e mais filas e filas de gente. Ninguém pra nos ajudar. Não tínhamos a menor idéia de para onde ir, ou onde passaríamos a noite. Finalmente, depois de alguns drinks, conseguimos a informação de que tínhamos um quarto de hotel, onde dormiríamos, e que nosso vôo estava marcado para a manhã seguinte. Durante a noite eu pude perceber que Lopez não estava bem. E foi só esperar. Mais tarde ele veio me dizer, literalmente, que não podia fazer aquela turnê, que sentia-se extremamente doente, e que tinha que ir para casa! O que eu podia fazer?

Então comprei uma passagem de volta, para que ele pudesse consultar o seu psiquiatra e tomar os remédios. O resto de nós decidiu, após longas conversas com a direção da turnê, etc, continuar a viagem para o Canadá. Lopez prometeu que se juntaria a nós depois de alguns dias, o que significaria, obviamente, que perderíamos alguns shows no início da turnê. Ainda sim, pensamos que seria melhor perder alguns, do que cancelar a turnê inteira. Infelizmente, aqueles shows seriam em cidades onde nunca havíamos tocado. Bem, mas primeiro tínhamos que chegar lá!!
Nosso vôo para Calgary pousou no horário, então nos dirigimos para a nossa conexão, que voaria para Edmonton. Adivinhem!?... o vôo estava lotado, e não tínhamos sequer a garantia de que seríamos acomodados no vôo seguinte! É claro que perdemos este também, por causa do overboking. Na terceira tentativa, quatro horas depois, Peter e eu embarcamos, enquanto Mendez e Per teriam que esperar mais uma hora. E pra completar, estava quase na hora do nosso primeiro show, o que significava que teríamos que cancelar oficialmente.

Achamos que chegaríamos ao local do show pelo menos em tempo de pedir desculpas, encontrar os fãs e conversar, ou qualquer coisa. No entanto, quando Peter e eu fomos pegar nossa bagagem, equipamentos e instrumentos, nada saiu do carrossel. Todo o nosso equipamento havia simplesmente sumido!! Depois de algumas horas de discussão com algum guarda cabeça-dura, descobrimos que nossa bagagem ainda estava em Calgary. Então liguei para o Per, mas eles obviamente já deveriam estar no avião. Tivemos que esperar mais algumas horas até que finalmente, o equipamento chegou. Puhhh! Subir no ônibus da turnê, e fumar aquele cigarro relaxante, foi como um sonho. E não havíamos sequer começado a turnê! Felizmente, conseguimos ir até o local do show, autografamos uns discos e ficamos por lá um pouco.
Para os próximos dois shows, havíamos planejado tocar ao menos algumas músicas com o técnico de bateria, Damon, no lugar de Lopez. Ele sabia algumas músicas leves do Damnation. Em Galgary, tocamos umas cinco músicas com ele. Para o show de Vancouver, o produtor sugeriu que trouxéssemos alguém, capaz de tocar um set mais longo, e músicas mais pesadas
Eu quase rejeitei a idéia imediatamente, pois não havia qualquer chance, que alguém pudesse aprender qualquer uma das nossas músicas em apenas um dia. De qualquer forma, conseguiram me convencer, e acho que pensei que valia uma tentativa. Eu nem sabia se o Lopez iria ou não aparecer!! Então ligamos para a “montanha humana”, Gene Hoglan, do Strapping Young Lad. Ele morava em Vancouver, e todos sabem que é um grande baterista, uma ótima pessoa e, acima de tudo, um dos heróis bateristas de Martin Lopez! Gene disse “Ok papai!” em apenas 10 segundos depois que pedimos a sua ajuda.
Ele chegou no local do show, mais ou menos na hora do almoço (de gente normal, na verdade!). Demos a ele um walkman, na esperança de que ele pudesse aprender pelo menos uma música. Na passagem de som, três horas depois, ele havia aprendido, e tocado quase perfeitamente “The drapery fals” e “Demon of the fall”. Aquele cara é um gênio! Eu levei duas semanas para aprender direito o lick de “Smoke on the Water”. Bem, aquele show foi lendário! Todos nós nos sentimos meio deslocados, devido a ausência de Lopez, mas tocar com Gene foi um acontecimento grande, e definitivamente único para o Opeth! O público enlouqueceu quando o apresentamos no palco. Ao lado, estavam Devin Townsend e sua namorada, assistindo, e provavelmente pensando que tentaríamos roubar Gene para o resto da turnê. Mas felizmente, quando chegamos em Seattle, Lopez voltou, mais feliz do que eu o havia visto em um bom tempo. O médico o havia diagnosticado com uma hereditária da qual seu pai, Washington também havia sofrido. Ele estava tomando remédios também. Honestamente, eu não lembro de tê-lo visto mais feliz!

Não é segredo algum que havíamos tido algumas dificuldades, nas gravações dos últimos 2 álbuns, mas também todo o passado que havia sido “contaminado” por alguns problemas pessoais, não estava nos aproximando, e sim nos distanciando.
Mas agora, havíamos deixado tudo aquilo de lado, e como resultado, senti como se estivéssemos mais conectados um com o outro, talvez mais do que em qualquer outra ocasião! Foi uma grande turnê! As bandas de suporte eram ótimas, e ótimas pessoas também! Nos divertimos muito com eles, e desejamos a eles o melhor! Me senti um pouco mal pela Devil Driver, quando algumas vezes, as pessoas na platéia tiravam sarro deles. Eu achei que eram bastante pesados, e não acho que sejam uma banda de nu-metal, absolutamente. E acreditem, EU ODEIO nu metal!!

Voltar para casa foi especialmente ótimo, pois sabíamos que esta seria nossa última turnê por um bom tempo. Todos nós nos sentimos exaustos, e também um pouco tristes. Fazer uma turnê é algo que você precisa experimentar, para saber como é. Quando você está lá, você mal pode esperar para voltar, mas logo você começa a querer sair de novo. Eu acho que esse estilo de vida tornou-se o que somos! Tivemos uma pequena pausa antes da nossa última turnê oficial.
A turnê reagendada em um dos nossos países favoritos no mundo, Australia! Eu estava realmente ansioso para voltar lá e tocar, mas também para passar algumas semanas com a minha esposa. Havíamos planejado umas férias de duas semanas, que seriam oficialmente a nossa lua-de-mel. Quase um ano depois do casamento, propriamente dito.

Essa turnê foi fantástica! Estamos juntando uma grande base de fãs em Oz, e cada show foi fantástico! Começamos em Adelaide. Na noite anterior decidimos beber... mas beber pra cair mesmo! Esvaziamos todos os mini-bars no hotel. Discutimos sobre se Yngwie Malmsteen está escrevendo músicas malignas ou não. De repente, Per teve esta grande idéia: Ele queria saber o que aconteceria se jogássemos uma cadeira do 12º andar. Os Martins estavam dormindo, mas estávamos no quarto deles, todos nós. Per jogou uma cadeira, e 12 andares abaixo, ela se despedaçou. Então eu joguei outra, que também virou migalhas.

Aí bateu a noção do “Que diabos estamos fazendo?” Somos homens crescidos, e não algumas crianças problemáticas. Eu fiquei muito nervoso, achando que seríamos multados, ou até mesmo presos. Eu quero dizer, é muito perigoso jogar cadeiras da sacada, como fizemos. Na hora de ir embora, a recepcionista perguntou algo do tipo “Vocês não gostaram das cadeiras na sacada?”, muito irônica. Acabamos pagando cerca de 50 dólares australianos por cadeira. Bem menos do que eu esperava. Enfim, eu quase senti que valeu a pena. Ver aquelas cadeiras se despedaçando foi uma visão magnífica! Mas eu não faria de novo. Ou faria???
Sydney é uma cidade fantástica! O show lá foi incrível. Eu acho que juntamos pelo menos 2000 pessoas no show no Enmore theatre. Maravilhoso!! Quando a turnê acabou, (duas noites em Melbourne), eu e minha esposa voamos de volta para Sydney, onde ficamos uma semana. Depois disso, ficamos uma semana em uma ilha tropical ensolarada, chamada Ilha Hamilton, na costa leste do continente. Tudo que eu posso dizer é, (novamente) fantástica!!
Havíamos completado oficialmente nossa última turnê. Os únicos shows restantes seriam duas aparições em festivais. Um deles no Download festival, em Donington park/UK, e no (grande!) festival de rock da Suécia.

Ambos os shows foram ótimos, e eu lembro de me sentir ligeiramente deprimido depois do show na Suécia. Todos sabiam que levaria um ano, antes de voltarmos ao palco com o Opeth. Quanto ao festival de rock da Suécia, posso recomendá-lo com entusiasmo, para qualquer fã de heavy metal clássico. Eu acho que é o melhor festival do mundo. Eu iria lá sendo pra tocar ou não.
Nste ano, Judas Priest era a atração principal, mas eu fiquei bastante desapontado com eles. Tipton tocou bem mal, e o baterista também. Apenas Rob e KK se saíram bem. Ian Hill? Bem, quem olha pra ele? Todos pareciam acreditar que poderiam viver do seu status de “metal gods” para sempre. Eu os amo de verdade, mas aquele show não foi bom!

Scorpions era uma das minhas bandas favoritas, quando eu era jovem. Eu, Anna e Blakkheim os assistimos, e nos divertimos demais! Eu admito, no entanto, que em alguns momentos nós rimos deles, e não com eles. Rudolf Schenker tem uns movimentos que são simplesmente...
Bem... não são legais! Europe tocou também, um show diferente, e foi legal vê-los, bom show! A melhor de todas foi... Heart! Eu sou honesto. Eu só conhecia alguns dos seus hits dos anos 80, então virtualmente, todas as músicas tocaram, eu as ouvi pela primeira vez.

Show absolutamente fantástico! Agora eu sou um grande fã!! A voz de Ann Wilson é a melhor que eu ouvi em muito tempo, e a sua irmã, Nancy, é incrível também!
Voltar para casa, para mim significou que eu poderia passer algum tempo escrevendo novas músicas (o que eu ainda estou fazendo), além de passar algum tempo com a minha esposa grávida. Tivemos férias de uma semana no sul, mas tirando isso, nós apenas descansamos no verão. Eu fui visitar Steven Wilson. Ele pediu que eu tocasse guitarra e fizesse alguns backing vocals no novo álbum do Porcupine Tree. Um convite que eu não podia não aceitar. Desde então.. não há nenhuma novidade da banda, que valha a pena mencionar, exceto o fato de que aquele DVD está vendendo como água no Canadá.

Peter casou-se no dia 21 de agosto, com sua namorada Jessica. Eu e minha esposa tivemos uma filha, Melinda, no dia 13 de setembro. Ela está chorando agora, então... tenho que sair!
Coverdale! Eu conheço mais ou menos o guitarrista do Whitesnake. Doug Aldrich, quando veio ao nosso show em Los Angeles, apresentou David Coverdale a mim e ao Blakkheim (que estava tremento!). As palavras de Coverdale, quando entrei em seu camarim foram “Olá Mikael, como vai a banda?”
Eu dei a ele uma cópia do Damnation. Acho que Doug já havia mostrado a ele, e parece que ele gostou! Além disso, consegui um pôster autografado para mim, Anna e Melinda! Que homem bacana! Conversamos por cerca de 10 minutos, então eu e Blakkie fomos pra um bar beber. Blakkheim ficou com o seu backstage pass autografado do Whitesnake pendurado no pescoço a noite inteira! * * *


Traduzida por Orchid - exclusivo Opeth Brasil.