ENTREVISTA COM MIKAEL ÅKERFELDT

Publicado dia 27 de Maio de 2008.
Traduzido de: ArtistDirect por Burden.


Watershed parece ser um álbum bastante consistente. Você poderia dizer se esse é realmente o caso?

Mikael: Sim, eu acho que é um pouco estranho para uma banda de metal começar um álbum dessa maneira. Normalmente você quer ter todos os canhões pegando fogo com a primeira faixa, pra mandar para longe a cabeça do ouvinte. De qualquer maneira, eu acho que essa música ficaria ‘afogada’ se ficasse entre duas longas faixas. Eu acho que o único lugar para ela seria como faixa de abertura. Isso traz o ouvinte para dentro do álbum de uma boa maneira. Quando a segunda música começa, não importa se você é headbanger ou não, você já está ligado. Eu gosto bastante da maneira com que ela te puxa para dentro do álbum. Esse é um ótimo começo.


Bem, você terminou o Ghost Reveries com outra música lenta, Isolation Years. Então isso é quase que como uma ‘ponte acústica’ entre os dois álbuns.

Mikael: Sim, eu acho. Não é nada que nós tenhamos pensado. Nós pensamos que a música Coil era tão bonita, tão expressiva. Eu acho que essa música tem um propósito, assim como todas as outras músicas do álbum. Eu não quero que fiquem achando que coloca-la no início foi uma espécia de jogada. Aquele realmente era o lugar dela.


Você conjurou um monte de diferentes imagens nesse álbum. O seu processo de composição se diferenciou dos outros?

Mikael: Um pouco, mas foi mais na parte técnica, porque eu comprei um computador equipado com Pro-Tools. Dessa maneira eu pude gravar todas as músicas e alinhá-las na ordem que eu queria para o álbum. Eu saía para longas caminhadas todos os dias após o trabalho e ia ouvindo as coisas que gravava. Então eu podia moldá-las e rearranjá-las. Isso foi diferente. Antigamente, nós fazíamos um monte de gravações e não obtínhamos nenhuma música. Eu simplesmente escrevia tudo no estúdio. Isso era ótimo e tudo mais, mas pensando na qualidade das músicas, o material fica melhor para mim, se feito dessa nova maneira. Para as letras, eu tinha uma idéia clara do que eu queria escrever, e na verdade eu queria escrever as letras de forma imediata. Eu as escrevi muito rápido. Eu escrevi todas durante uma noite no estúdio. Escrever esse álbum foi algo bem fácil e ligeiro. Foi mais puxado com todos os outros álbuns, e a maioria das sessões de gravação foram horríveis no passado, mas essa última foi divertida. Nós definitivamente ficamos apreensivos com essa última.


Como foi essa noite em que você escreveu todas as letras? Você estava particularmente inspirado?

Mikael: Sim, eu estava, mas eu sabia bem o que eu queria escrever, e era tudo questão de tempo para trazer tudo pra fora. Então eu falei pros caras “Vocês já podem ir dormir, eu vou ficar acordado e escrever algumas letras”. Na manhã seguinte eu tinha seis músicas completas! Coil já estava pronta desde a demo. Então sim, eu completei bastante coisa em uma única noite. Isso foi bem fácil. Os vocais guturais são fáceis para colocar dentro do ritmo de uma música. Eu sempre consigo encontrar o ritmo certo para encaixá-los nas letras que escrevo. Os vocais limpos eu fiz nas demos, então já tinha os ritmos e as linhas vocais prontas. Só foi questão de conectar as palavras certas dentro das melodias. Isso também foi simples de fazer. Todos os nossos álbuns haviam sido uma espécie de viagem, de alguma maneira. Ghost Reveries e esse último foram mais pré-produção e ensaios. Nós estávamos aptos a mudar as coisas. Nós estávamos mais certos sobre algumas coisas do que no passado. Quando nós fizemos o álbum duplo, nós não tivemos uma amostra sequer do estúdio. Uma vez que os álbuns foram finalizados, nós não sabíamos o que tinha neles. Uma vez que nós estivemos ensaiando por algumas semanas e as músicas estavam prontas, nós simplesmente sabíamos que tínhamos um bom álbuns.


A vibe setentista do trabalho artístico do álbum nos remete um pouco ao filme O Exorcista.

Mikael: [Risos] Isso é legal. Essa não foi exatamente a inspiração. Eu disse para nosso artista Travis que eu queria uma figura de completa isolação, e eu queria que fosse bem sombrio, como sempre foi. Isso é bem mais sutil dessa vez. Tem um monte de mensagens e significados escondidos ali de uma forma que nunca tivemos antes. Foi um prazer fazer essa arte meio que de imediato, mas eu acho que ficou algo bem mais minucioso. Travis nos enviou uma porrada de idéias. Eu estava bastante atento à maioria dessas imagens. Eu não peguei nenhuma inspiração com ‘O Exorcista’, mas isso é legal. A vibe setentista ‘na cara’ foi o que nós queríamos. Se você tiver uma arte de capa sem o logo do Opeth lá, a maioria das pessoas verá que ali é um álbum do Opeth, de qualquer maneira. Essa nova arte pega o caminha das artes antigas do Opeth de uma maneira geral.


Em termos de estrutura as músicas têm uma certa influência do Oriente Médio, por causa daquelas partes acústicas.

Mikael: Eu não escuto muito música do Oriente Médio. De qualquer forma, em alguns dos álbuns do Led Zeppelin, como o Led Zeppelin III e em alguns materiais do Rainbow, as minhas músicas favoritas têm uma certa influência do Oriente Médio. Isso me inspira no final, e acho que elas vêem à minha mente depois. Isso também me faz trazer os acordes maiores, algo que eu tinha medo no passado. Agora eu entendo que os acordes maiores podem criar uma dinâmica emocional para a música e fazer as partes malvadas da música soarem mais malvadas e as partes calmas soarem mais calmas. Nós ficamos sempre empolgados com essas dinâmicas.


Sempre existiu uma influência do Zeppelin nas suas músicas?

Mikael: Eu amo o Led Zeppelin III, talvez não seja o meu favorito, mas a música Friends me inspira a não parar. Eu ainda posso colocar essa música pra tocar e mesmo após ouví-la nos últimos 25 anos, eu ainda consigo ficar inspirado. Tem bastante coisa boa ali. Muitas pessoas dizem que nós somos o Led Zeppelin do Death Metal, ou algo assim, e eu não gostaria de dizer isso [risos]. De qualquer maneira, eles são a banda que me inspiraram muito através dos anos, mas não mais do que o Judas Priest ou o Deep Purple. A percepção para os nossos ouvintes é que nós vivemos em florestas ou em montanhas geladas. Por um lado isso é verdade. Essa é a imagem que nós queremos para a nossa música, de certa forma. Essa percepção é bem diferente de pessoa para pessoa. Porém na Suécia as pessoas têm uma visão bastante definida sobre nós. Também gravamos álbuns no meio do inverno. Esse último é bastante progressivo. Eu acho que Ghost Reveries superou tudo o que fizemos antes, e nós realmente fizemos um grande disco com ele. Esse último nós sobrepujou, e eu não sei o porquê disso. Talvez foram as trocas de formação, mas eu simplesmente senti mais liberdade com essas composições. Eu senti como se não houvessem fronteiras dessa vez, foi algo como "Foda-se, vamos fazer isso".